A astronomia é uma ciência que contribuiu muito para o desenvolvimento da humanidade, pois graças a ela, a matemática e a física foram aperfeiçoadas, tendo o homem avançando nos conhecimentos da engenharia e da geometria, culminando na época das grandes navegações com a conquista das Américas, pois, se não fosse o advento do aperfeiçoamento e utilização dos conhecimentos astronomicos para auxiliar nas odisséias náuticas ocorridadas no século XIII, dificilmente os portugueses e espanhóis teriam chegado ao novo mundo.
Aqui no Brasil, o maior incentivador da astronomia no século XIX foi D. Pedro II, (assim afirma Rubens de Azevedo no item intitulado: D. Pedro II e a Astronomia[1]),que orientado quando jovem pelo litógrafo e artista francês Louis Alexis Boulanger (1798-1874) e pelo Frei Pedro de Santa Maria que realizou a primeira pesquisa matemática publicada no Brasil em 1824, foi que passou a tomar iniciativa de desenvolver a mesma no Brasil, culminando com a autonomia e a modernização do antigo observatório imperial da Família Real Portuguesa que passou a se chamar: Imperial Observatório do Rio de Janeiro.
Graças a iniciativa do Imperador em 1838 foi criado no Rio de Janeiro o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro(IHGB) em que se juntaram as mais diversas expressões da ciência e da cultura brasileiras[2]; iniciaram seus trabalhos de forma bem destacada tendo a supervisão e presidência do Imperador que era figura ativa nas reuniões trazendo, animando, apoiando à equipe e dando sugestões de trabalhos, sempre participando dos vários debates científicos.
A partir do Instituto, tiveram os cientistas a idéia de criar uma comissão científica exploradora, em uma sessão que ocorreu em 30 de maio de 1856. A comissão científica exploradora veio inicialmente para o Ceará em 1859, porque muitos estudiosos, como o Thomaz Pompeu de Sousa Brasi[3]l escreveram para a corte imperial informando que havia no solo cearense muitas riquezas minerais.
“Na parte mineralógica encontra-se ouro em várias partes; prata, plumbagina, chumbo, ferro, antimônio, arsênico, antracito, mármore, calcários, pórfiros, diversos cristais, nitreiras e salinas em toda costa”.
(Fonte:Dicionário Estatistico da Província do Ceará 1861)
Com isso podemos perceber que a escolha do Ceará como a primeira região visitada pela comissão científica não foi por acaso, pois, além de recolher amostras de minerais valiosos e raros e estudar o solo cearense, vireram também fazer pesquisas sobre as condições em que viviam os povos indígenas na época, colher e analizar amostras da fauna e da flora local, assim como realizar observações meteorológicas e estudos climatológicos, tudo isso, conhecimento acessível na época apenas às elites intelectuais locais.
Essa comissão foi responsável pela instalação do primeiro observatório astronômico do Ceará e o terceiro do Brasil segundo consta no livro “temas astronomicos volume II” no capítulo intitulado: O Primeiro Observatório Astronomico do Ceará[4], e seus integrantes como fora colocado antes, eram figuras ilustres da sociedade brasileira na época; intelectuais, escritores, professores e cientistas bastante conhecidos durante o Brasil Império, entre os quais: Rajha Gablagia - coordenador da seção astronomica e geográfica, Guilherme Shuch Capanema - coodenador da seção Geológica e Mineralógica, o grande poeta indianista Gonçalves Dias - coordenador da seção antropológica, dentre outros
O observatório foi escolhido para ser instalado no morro do Coroatá (hoje morro do Croatá, próximo do atual cemitério São João Batista), pelo chefe da seção astronômica e Geográfica da Comissão, Giacomo Raja Gabaglia, fator que ajudou até na navegação e na orientação dos barcos na época, visto que se situava no ponto mais elevado da linha de dunas que se estendia à beira-mar, servindo como ponto de referência para as embarcações.
Gonçalves Dias[5] em uma de suas crônicas para o “Jornal do Commércio“ do Rio de Janeiro assim relatava sobre o observatório provisório:
'“O Dr. Gabaglia, além de optar pelo melhor centro de observações geodésicas, teve também em vista fixar um ponto importante para a mareação dos navegantes; e, neste caso, está o Caruatá, que é um dos mais notáveis e mais apropriados para o efeito, pelo que a barraca de madeira que ali se está construindo para servir de observatório não é um simples abrigo para servir de observatório não é um simples abrigopara o perfeito instrumental de Ertel, que marca um segundo arco;é, e ficará sendo principalmente para os navegantes que demandam os canais pelos quais se entra no porto e cidade de Fortaleza, uma baliza fixa, distinta e difícil de confundir-se com outra.
Esta construção, cujos desenhos alcancei ver, não tem de notável em si senão transformar-se toda em janelas e desconjuntar-se o tecto e paredes em quartéis que se poderão abrir e cerrar como for preciso; está se preparando por peças e dentro de poucos dias ficará assentado o observatório do Caruatá“.
(Fonte: Jornal do Commercio)
Este observatório contava com um bom material em termos de equipamentos, tanto de instrumentos ópticos(1 telescópio completo e 3 lunetas), como de outros materiais de pesquisa: (barômetros, fotômetros, termometros para solos, teodolitos e etc..).
Quanto a material humano, dispensava qualquer comentário, pois eram profissionais bastante renomados, e grandes cientistas destacados da época.
Na inauguração, houve uma grande festa que foi noticiada no dia seguinte pelo jornal“O SOL“ [7]afirmando que a festa era em honra de S. Majestade Imperial, que veio a terminar por volta das duas horas da madrugada.
.Renato Braga[8] em seu livro “História da Comissão Científica Exploradora” dá mais ênfase a essa questão do intercâmbio de conhecimentos entre a comissão e os intelectuais locais quando afirmava que esses reuniam-se promovendo palestras e conferências para discutir os problemas relativos à província. Foi inclusive nesse período que foi sugerido a vinda de camelos para o Ceará, fato que posteriormente terminou em grande fracasso uma vez que estes não se adaptaram as condições locais
. A comissão científica ainda ficou aqui no Ceará, até 1861 e nesse período, fizeram pesquisas viajando em lombo de burro a várias localidades, como Sobral, Ubajara, Arronches (atual Parangaba), e etc..., fazendo levantamentos topográficos das regiões visitadas, colhendo amostras de minerais, espécimes de aves e plantas, assim como também visitaram aldeamentos para saber sobre os problemas das populações indígenas, afim de encontrar soluções para a sobrevivência desses povos, trocando idéias com os governantes e as elites locais.
Vários foram os intelectuais cearenses que tiveram contato com a comissão científica, trocaram idéias, ou se inspiraram em seus trabalhos como foi o caso de :Antônio Bezerra, Juvenal Galeno, Tomas Pompeu de Sousa Brasil, Guilherme Studart, e vários outros, sendo que o último citado (o Barão de Studart), foi um dos responsáveis pela criação do instituto histórico e antropológico do Ceará que funciona até os dias de hoje.
Nas viagens da comissão, alguns desses intelectuais cearenses também viajaram com eles aos vários locais do interior do estado; e em algumas dessas localidades, a astronomia chegou a ser objeto de discussão entre eles e as populações locais, havendo inclusive, entrevistas com moradores nessas localidades visitadas que relataram muitos fenômenos interessantes,principalmente "chuva de meteoritos".
Por:George Yure de Andrade Castro - professor, pesquisador e estudante de história pela Universidade Federal do Ceará.
Fontes:
[1]AZEVEDO, Rubens de. “D. Pedro II e a Astronomia”. Temas Astronomicos volume 2. Fortaleza, 1962, pág. 507
[2]FROTA, Francisco Marialva Mont' Alverne. “O Canário da Terra dos Sabiás” . t. Xl (1976) págs 190 a 197.
[3]BRASIL Thoma Pompeu de Sousa. “Dicionário Topográfico e Estatistico da Província do Ceará”, Rio de Janeiro, 1861.
[4]AZEVEDO, Rubens de,” O Primeiro Observatório Astronomico do Ceará.” t. cv. 1991, págs 53 a 61
[5]DIAS, Gonçalves. op. cit.
[7]Jornal ” O SOL”, 30 de junho de, 1859.
[8]BRAGA, Renato, “História da Comissão Científica Exploradora”, Imprensa Universitária do Ceará, 1962, pág 48.
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