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terça-feira, 8 de julho de 2008

Sistemas inerciais: o calcanhar-de-aquiles do VLS


(Panorama Espacial) O sistema de navegação inercial (inertial navigation system - INS) é um dos componentes mais críticos de um lançador espacial, uma vez que possibilita a guiagem e o controle da trajetória do veículo, essenciais para a correta inserção da carga útil em órbita, de modo autônomo, sem auxílio de qualquer sinal externo. Uma plataforma INS é geralmente constituída de dois sensores principais, o acelerômetro, empregado para se determinar as acelerações do centro de massa do veículo, e o giroscópio, usado para determinar as rotações em torno do centro de massa do veículo e, por conseqüência, sua orientação em relação à sua trajetória.

Justamente por ser um componente crítico em projetos de lançadores, e também essencial para a construção de mísseis de longo alcance, as plataformas INS têm sua comercialização bastante restrita no mercado internacional, sendo um dos itens mais controlados pelo Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (Missile Technology Control Regime – MTCR).

Na primeira metade da década de oitenta, a Avibrás, tradicional indústria brasileira do setor aeroespacial e defesa, contando com uma equipe de pesquisadores oriunda do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), subordinado ao Centro Técnico Aeroespacial (CTA), deu início ao desenvolvimento de uma plataforma inercial destinada ao projeto do VLS-1. Alguns anos mais tarde, a plataforma estava concluída, e na época, em termos técnicos, foi tida como um sucesso. Comercialmente, porém, foi um fracasso, por razões que, segundo alguns envolvidos à época com o projeto, foram eminentemente políticas.

No começo de 1995, o VLS-1 se aproximava de seu primeiro vôo, e com o fracasso comercial do projeto da Avibrás, o governo recorreu à Rússia, que acabou fornecendo cinco plataformas. Na época, a compra dos sistemas foi bastante criticada no exterior, em especial pelo governo dos EUA, que temia a proliferação de tecnologia de mísseis. A preocupação norte-americana foi evidenciada em duas reportagens publicadas na imprensa daquele país. Em 8 de junho, o jornal "The Washington Post" publicava uma matéria intitulada "U.S. waives objection to Russian missile technology sale to Brazil", enquanto que na edição de julho/agosto do boletim especializado "Arms Control Today", saía outra reportagem, mais incisiva, sob o título "U.S. waives Russia-Brazil MTCR violation". Em agosto daquele ano, na cerimônia de apresentação do jato regional EMB-145, da Embraer, Fernando Henrique Cardoso, então Presidente da República, deu em seu discurso resposta às preocupações internacionais, ressaltando o caráter pacífico do Programa VLS. Ainda em 1995, o Brasil aderiu ao MTCR.

Das cinco plataformas adquiridas, três foram perdidas nas operações de lançamento de 1997, 1999 e 2003, e outra num esforço de pesquisa realizado pelo IAE. Resta apenas uma.

Com o passar dos anos, as restrições comerciais e políticas para aquisição de plataformas INS se tornaram ainda mais rígidas, o que tornou ainda mais essencial a necessidade de se ter o domínio desta tecnologia, vital para se alcançar autonomia no acesso ao espaço. Desde 2005, sob a coordenação da Agência Espacial Brasileira (AEB), o IAE e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com recursos de fundos setoriais geridos pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), desenvolvem em conjunto uma plataforma inercial para aplicações aeroespaciais, como em foguetes e em satélites artificiais.

A pesquisa já colhe alguns frutos. Na operação Cumã-II, realizada no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), em julho do ano passado, um dos experimentos realizados a bordo do foguete de sondagem VSB-30 foi o Sistema Dinâmico de Vôo (SDV), desenvolvido em conjunto pelo IAE e pelo Instituto de Estudos Avançados (IEAv/CTA). O SDV era composto por dois giroscópios à fibra ótica, instalados com alinhamento segundo o eixo longitudinal do foguete. Este foi um dos vários testes previstos ao longo do desenvolvimento, devendo no futuro ocorrer outros vôos suborbitais e também ensaios em aviões. O objetivo é ter uma plataforma operacional até o início da próxima década, para o vôo de um protótipo completo do VLS-1.

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